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08/05/2017 às 17h47min - Atualizada em 08/05/2017 às 17h47min
Eduardo Caznok - União da Vitória(PR)
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A saga dos imigrantes ucranianos no Brasil
O Brasil e a Proteção da Cultura

Os descendentes de ucranianos no Brasil constituem hoje uma comunidade de mais de 500 mil pessoas e estão localizados em sua maioria – cerca de 80%, ou seja, acima de 400 mil –, no Paraná. Em Curitiba, são aproximadamente 55 mil pessoas, porém, o maior percentual ocorre no município de Prudentópolis, onde em uma população de acima de 50 mil, 38 mil são descendentes de ucranianos, ou seja, cerca de 75% da população, seguido de Mallet, onde o percentual de descendentes de ucranianos gira em torno de 60%.

De acordo com o presidente da Representação Central Ucraniano–Brasileira, Dr. Vitório Sorotiuk, a etnia ucraniana no Paraná está organizada de diferentes formas. “São organizações religiosas, sendo majoritária a igreja greco-católica e a ortodoxa. Também possuímos sociedades e comunidades ucranianas, tais como: Sociedade Ucraniana do Brasil, Sociedade dos Amigos da Cultura Ucraniana, Sociedade Unificação, Associação da Juventude Ucraíno-Brasileira, Igreja Ucraniana Católica do Brasil e Igreja Ortodoxa Ucraniana do Brasil, a Sociedade Ucraniana de União da Vitória e também o Museu do Milênio de Prudentópolis.”


Recentemente uma grande pesquisa patrocinada pelo governo brasileiro foi levada a efeito no Estado do Paraná sobre o acervo da construção das igrejas. “Igrejas Ucranianas – Arquitetura da Imigração no Paraná”, fruto de um trabalho de pesquisa de quatro anos do Instituto ArquiBrasil. O projeto teve a coordenação geral de Key Imaguire Júnior.


A comunidade possui dois museus. Um em Curitiba junto à Sociedade Ucraniana do Brasil – Subras e outro maior em Prudentópolis. Em Curitiba, a Prefeitura Municipal construiu um Memorial Ucraniano, constituído por uma réplica da primeira igreja construída no Brasil, uma pêssanka e agora um monumento dedicado às vítimas do Holodomor.


Dois antigos jornais são mantidos. O centenário jornal Pracia, de cunho religioso de Prudentópolis, e o Xliblorob, agora em edição eletrônica editado pela Subras. A Sociedade dos Amigos da Cultura Ucraniana – TPUK tornou-se ponto de cultura nacional.


 


História


Os ucranianos são descendentes que habitavam a vasta área que se estende do norte do Mar Negro às fronteiras da Rússia, Polônia, Bielorrússia, Eslováquia e Moldávia. Tais povos abrangiam inúmeras tribos nômades como os citas e os sármatas de língua persa, os godos e os varangianos de língua germânica e os czares, pechenegues e cumanos de línguas turca. De qualquer maneira, as origens do povo ucraniano são predominantemente eslavas. Os antigos eslavos orientais habitavam as terras da atual Ucrânia e, a partir do século VI, tornaram-se dominantes e fundaram a cidade de Kiev, antiga capital do poderoso estado conhecido como Kievan Rus.


A imigração ucraniana para o Brasil ocorreu no mesmo período das grandes imigrações europeias no final do século XIX, após a abolição da escravatura, e teve início no ano de 1891, com a chegada das primeiras oito famílias de imigrantes da cidade de Zolotiv, região de Lviv, Oeste da Ucrânia, para a cidade de Mallet, Estado do Paraná. A duas primeiras grandes levas vindas da região da Galícia e Bukovina (parte ocidental da Ucrânia), calculadas aproximadamente em mais de cinco mil famílias de agricultores, chegaram em 1895 e 1896. Entre 1897, a imigração ucraniana tornou-se massiva, totalizando aproximadamente 20.000 imigrantes, sendo todos originários da Galícia, região que era constituída de 271.000 pessoas. A segunda onda de imigrantes para o Brasil verificou-se entre 1908 a 1914 também provenientes da Galícia e a motivação foi o emprego na construção da estrada de ferro entre São Paulo e o Rio Grande do Sul. Nesse período chegaram 18.500 imigrantes. Após 1917 a 1945 tivemos novas levas de imigrantes, agora vindas por razões mais políticas, constituídas por imigrantes operários e profissionais de várias categorias, como militares, ex-prisioneiros de guerra e refugiados políticos.


Calcula a historiadora Oksana Boruszenko que até o final da Primeira Grande Guerra o número de imigrantes ucranianos no Brasil era de 45 mil pessoas. Entre as duas grandes guerras, ingressaram no Brasil aproximadamente 9.000 imigrantes ucranianos. E após a Segunda Grande Guerra aproximadamente 7.000. O número de imigrantes, de fato, deve ter sido maior, pois a Ucrânia estava dominada pelo Império Austro-Húngaro e pela Polônia, e muitos imigrantes possuíam passaporte austríaco ou polonês. Os ucranianos formaram assim o maior contingente eslavo a imigrar para o Brasil. Porém, na década de 1960, muitos reimigraram para os Estados Unidos e principalmente para o Canadá, onde a comunidade ucraniana era maior e obtinha mais benefícios do governo canadense para se estabelecer em fazendas.


As razões da imigração eram sociais e econômicas. Agentes espalhados pela Europa distribuíam artigos, livretos e comunicados com falsas promessas de uma vida melhor no Brasil, assim explorando a fragilidade dos camponeses, pois estavam sendo iludidos e mal tratados em seu próprio país.


Ingênuos e acreditando nas falsas promessas, consideravam que ao chegarem ao destino, eles teriam ilimitáveis terras férteis, casas e animais. Porém, encontraram uma realidade muito diferente da que foi prometida.


Trazendo pouca bagagem, pouca ferramenta e quase nada de roupa, os primeiros imigrantes precisaram abrir clareiras na mata atlântica e na floresta de araucárias para chegarem ao terreno designado. A cada um eram doados dez alqueires de terra pelo governo republicano; porém suas condições continuavam precárias.


Tais imigrantes sabiam da importância da educação para seus filhos e, impulsionados pela liberdade que o Brasil oferecia, relevaram os percalços e lutaram, fazendo do Brasil sua nova terra, transformando dificuldades em oportunidades.


Tempos depois, passado o período de colonização no novo país, sentiram a necessidade de resgatar sua cultura e religião milenar para repassar aos seus filhos. Chamaram primeiramente os missionários e, depois de construída a primeira igreja de madeira, foi dado início à vida cultural e às tradições ucranianas em território brasileiro.


 


Religião


Sendo um povo extremamente religioso, os ucranianos imigrantes preservaram sua devoção tanto para a doutrina católica, quanto para a ortodoxa.


No entanto, a Igreja Greco-Católica Ucraniana prevalece como a mais influente entre os descendentes brasileiros, uma vez que estes vieram principalmente da antiga Galícia, província da qual havia sido dominada pela Polônia, país católico que teria forçado muitos ucranianos a seguirem sua religião.


No Brasil, a arquitetura da imigração compreende, sobretudo, as igrejas católicas e ortodoxas de estilo oriental, caracterizadas por suas cúpulas bizantinas. As igrejas de rito oriental também possuem em comum a iconóstase, que é um painel de ícones religiosos colocado entre a nave e o santuário, demarcando, simbolicamente, os limites do sagrado e do profano. As iconóstases possuem uma estrutura padronizada, de forma que sua primeira fileira normalmente carrega as imagens dos quatro evangelistas, ícones dos anjos Miguel, Gabriel, de Maria e de Cristo, acompanhadas pelos santos locais.


 


Cultura


Preservando elementos antigos da cultura ucraniana, que abrangem danças, músicas, bordados, gastronomia e língua, os descendentes de ucranianos mantêm tais tradições até hoje. Um exemplo disso são os inúmeros grupos folclóricos ucranianos que expressam sua cultura e riqueza associada aos festivais e cerimônias religiosas. Residindo em sua imensa maioria no Paraná e, em menor escala, no Rio Gande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Com destaque para Prudentópolis, Guarapuava, Mallet, Antônio Olinto. Em Curitiba, são destacados o Grupo Folclórico Ucraniano Poltava, fundado no dia 13 de junho de 1981, e o Folclore Ucraniano Barvinok, fundado em 1930.


A língua ucraniana foi preservada por meio de instituições educacionais, igrejas e imprensa. Em regiões rurais, o dialeto ucraniano continua sendo a língua doméstica de inúmeras famílias. A produção de pêssankas e bordados, traço característico da cultura ucraniana, permanece no Brasil. Há indícios de que os ucranianos produziam pêssankas desde 3.000 a.C., com ferramentas rústicas e desenhos não tão elaborados como os de hoje em dia. Como os ucranianos veneravam a natureza, antes da conversão ao cristianismo, na Festa da Primavera ofereciam presentes ao deus Dajbóh, equivalente a Apolo, e entre eles sempre se encontravam pêssankas.


Quando o príncipe Wolodymir adotou o cristianismo como religião oficial do país, o clero adaptou a arte dos ovos decorados à nova realidade e eles passaram a ser uma tradição de Páscoa. Ao longo de sua história, a Ucrânia passou por inúmeras dificuldades políticas, ligadas principalmente ao seu domínio de território, guerras e comunismo. No entanto, as pêssankas nunca deixaram de ser um sinal da tradição do povo, e quando a independência do país foi decretada em 1991, elas passaram a ser um símbolo de longevidade para o país.


Atualmente, os ucranianos exercem todos os tipos de profissões e atividades. Há empresários, agricultores e comerciantes. Possuem participação na política e exercem cargos públicos. No Estado do Paraná, em qualquer situação política, há sempre um descendente de ucranianos exercendo algum cargo elevado. Há também novas gerações de médicos, engenheiros, advogados, professores e outras formações.


É grande o número de personalidades brasileiras destacadas que nasceram na Ucrânia ou são descendentes de ucranianos. Nasceram na Ucrânia a escritora Clarisse Lispector, o arquiteto Gregori Warchavchik, que foi o precursor da arquitetura modernista brasileira, e a poeta e escritora Wira Wowk Selianki. Descendem de ucranianos o pintor Miguel Bakun, a poeta Helena Kolody, a dramaturga Denise Stoklos, entre outros.


 


O Brasil e a Proteção da Cultura


Uma das características do Brasil é que não somente reconhece a identidade do outro, mas intercambia. Em grupos folclóricos, participam membros de outras etnias. Não é raro ver um descendente de africanos ou de japoneses dançando o Hopak (dança tradicional ucraniana).


A atual Constituição do Brasil estabelece que fosse constituído patrimônio cultural brasileiro o conjunto de bens materiais e imateriais portadores de referência de diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. E a comunidade ucraniana,que também reside no Brasil, é um desses grupos formadores da nação brasileira.


Antes, o Brasil trabalhava com seus três principais grupos étnicos formadores: o português, o negro e o índio. Agora, vem reconhecendo a contribuição de outros grupos europeus, sendo italianos, alemães, holandeses, espanhóis, suíços, poloneses, ucranianos, japoneses e os povos árabes, principalmente os libaneses, e a comunidade judaica.


Andrey Michalzechen


Fonte : O Estrangeiro





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